Levantamento aponta relação direta entre exploração sexual e o baixo desempenho escolar
De 927 municípios brasileiros que registram casos de exploração sexual de crianças e adolescentes, 85% possui índices de abandono e de distorção idade-série maiores do que as médias obtidas pelos próprios estados onde estão localizados. O levantamento de caráter inédito, da jornalista Érika Klingl, publicado pelo jornal Correio Braziliense, nesta quarta-feira (22/11), revela a relação direta entre a exploração sexual de crianças e adolescentes e o baixo desempenho escolar. A autora da reportagem, mostrada em um caderno especial de 12 páginas, é uma das vencedoras do 3° Concurso Tim Lopes de Investigação Jornalística, promovido pela ANDI - Agência de Notícias dos Direitos da Infância e Instituto WCF-Brasil. "Eu cruzei dados do MEC com informações da Matriz Intersetorial de Enfrentamento da Exploração Sexual Comercial de Crianças e Adolescentes da Secretaria Especial de Direitos Humanos", explica Érika. Na análise, a jornalista percebeu que os índices de abandono escolar eram maiores em municípios com altos índices de exploração. A partir daí viajou pelas cinco regiões brasileiras para comprovar suas suspeitas. Érika foi a Foz do Iguaçu (PR) Poconé (MT), Ananideua (PA), Medina (MG) e Brasília (DF), além de outras dez cidades, onde conversou com crianças vítimas de exploração, professores, especialistas, assistentes e conselhos tutelares. "Foi uma experiência muito gratificante e muito triste", revela. Em sua investigação, a jornalista constatou que o sistema educacional não está preparado para lidar com a realidade da violência sexual. "A escola não é capaz de trabalhar com meninas vitimizadas. Como voltam depois das experiências das ruas, essas jovens estão com outra visão da vida. Muitos métodos de ensino como o tradicional ‘vovô viu a uva' se tornam desinteressantes para elas", diz a repórter. Vítimas - Durante o trajeto entre os principais pontos de exploração sexual de crianças no País, Érika Klingl foi acompanhada pelo repórter-fotógrafico Cadu Gomes. Entre as meninas e meninos que ouviu, havia jovens de 12 a 17 anos. "O que assusta é que muitas dessas crianças não sabem que são vítimas. Em Fortaleza, por exemplo, tem quem ache que é legal sair com um estrangeiro, ganhar um dinheiro e ainda esperar sair dessa vida porque o gringo virá buscá-la", afirma. A jornalista entrou em contato com aproximadamente 40 crianças. Em sua abordagem, ao invés de questionar o menino ou menina sobre o seu estado de exploração, procurava saber se o jovem estava na escola ou não. "Todo mundo gosta de falar sobre escola, mesmo não estando inserido nela", afirma. Érika diz que teve dois momentos marcantes nessas conversas. O primeiro choque foi quando entrevistou um menino em Foz do Iguaçu. Abusado sexualmente aos 10 anos em casa, o jovem deixou a família e tornou-se vítima da exploração sexual. O outro caso aconteceu com uma criança da mesma idade. Aliciada pela vizinha para um senhor de 70 anos, a menina acabou engravidando. Apesar dos possíveis riscos, Érika garante que a apuração aconteceu de forma tranqüila. "Aconteceram alguns incidentes como o empurrão de uma possível aliciadora em frente ao TSE de Brasília, à noite", conta. Após a experiência, a repórter considera que a educação deve ser prioridade do governo como uma das formas de combater a violência sexual. "Há boas idéias, mas não se consegue executar. A escola deve ser a porta de entrada que ajude a criança a sair da exploração. Tem que haver escolas mais capacitadas para receberem os estudantes", enfatiza. Érika também salienta o papel da mídia na cobrança de ações: "Nunca se ouviu falar tanto de educação neste País. Mas ela ainda está em segundo plano, atrás da política", opina. Perfil - Mineira de 29 anos, a repórter formou-se em jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (CEUB) em 2001. Trabalhou na Radiobrás, Jornal do Brasil, Revista Istoé Dinheiro e Correio Braziliense. No ano passado foi finalista do Prêmio IGE de Jornalismo, voltado a matérias de Educação. Nos últimos dois anos tem se dedicado à produção de reportagens sobre direitos humanos. Concurso Tim Lopes - Iniciativa promovida pela ANDI e o Instituto WCF-Brasil, o concurso estimula a mídia a produzir reportagens aprofundadas sobre a violência sexual, no sentido de investigar o problema e apontar possíveis soluções. Para isso fornece apoio técnico e financeiro aos repórteres premiados para que desenvolvam suas pautas. O projeto tem o apoio técnico do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), da OIT (Organização Internacional do Trabalho), da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas) e da ABRAJI (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo).