Etapa Final
No dia 13 de dezembro de 2004, a imprensa de todo o país noticiou a chegada da Caravana Nacional pela Erradicação do Trabalho Infantil a Brasília para o encontro com Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva - no passado, um menino trabalhador. A cerimônia, no Palácio do Planalto, foi aberta pelo coral composto por 33 meninos e meninas de Goianinha (RN), retirados do trabalho nos lixões e na agricultura, que cantaram o Hino Nacional. O baiano Cosme Pereira júnior, de ii anos, foi destaque nacional naquele dia. Sua imagem percorreu o país por meio da mídia. Ao improvisar versos sobre o trabalho infantil, tocou fundo na consciência brasileira. Em seguida, se dirigiu - fora do programado e de maneira espontânea - ao Presidente Lula e lhe perguntou: "LEMBRA QUANDO O SENHOR ERA PEQUENO, TRABALHADOR, COM FOME, E NÃO IA PARA A ESCOLA? NAQUELA HORA NINGUÉM TOMOU UMA ATITUDE. É HORA DE MUDAR ESSA SITUAÇÃO". O Presidente respondeu à provocação lembrando: "Eu quero crer que seja a primeira vez que o Brasil tem uma primeira-dama que começou a trabalhar aos l0 anos de idade, sendo babá e, depois aos14, em uma fábrica. E tem um Presidente da República que, possivelmente, começou a vida como muitas dessas crianças, antes de entrarem no PETI, vendendo coisas na rua. Estou dizendo isso da década de 1950. Portanto, esse problema do trabalho infantil, no Brasil, é uma coisa histórica e crônica". A história de Cosme é a mesma de milhares de crianças brasileiras exploradas no trabalho infantil. Ele começou a trabalhar com cinco anos de idade, carregando sisal para a secagem. Acordava às cinco horas da manhã, trabalhava até o almoço, ia para a escola e voltava ao trabalho. Além do cansaço físico, seu corpo avermelhava por causa do contato com o sisal. Os pais e avós de Cosme também começaram a trabalhar antes dos dez anos, na agricultura. Luís Pereira de Oliveira, o avô, perdeu um dos braços "no motor do sisal". Essa trajetória que já roubou a infância de três gerações começou a mudar quando Cosme e sua irmã, que também trabalhava no sisal, entraram para o PETÍ. "MUDOU MUITA COISA. AGORA SÓ BRINCO E ESTUDO", disse o menino de Conceição do Coité, um povoado no meio da caatinga baiana. Crianças e adolescentes representantes de todos os estados vestindo camisetas das cores do Cata-vento deram à solenidade no Palácio do Planalto um caráter singularmente festivo. Da região Norte, 16 crianças vestiam camisetas de cor Laranja; do Nordeste, 52 estavam com camisetas verdes; do Centro-Oeste, 44 vestiam camisetas azuis; do Sudeste, 26 estavam com camisetas vermelhas; e do Sul, 13 com camisetas amarelas. Jeconias Guilherme dos Santos (RR), de 9 anos, representou a região Norte; jair Nunes Pereira (Pl), de 16 anos, a região Nordeste; Sumaya Cristina Redher de Souza (MT), de 12 anos, a região Centro-Oeste; Tatiane Costa Cordeiro (MG), de 12 anos, a região Sudeste e Jéssica Vanessa da Silva (PR), de 13 anos, a região Sul. Todos participaram da Caravana Nacional pela Erradicação do Trabalho Infantil em suas regiões e, em Brasília, do 1 Encontro Nacional de Crianças e Adoiescentes Oriundos do Trabalho Infantil, que os preparou para a audiência com o Presidente Lula. Durante o evento, crianças e adolescentes participaram de oficinas pedagógicas e, através de atividades lúdicas e culturais, discutiram participação, estruturas de poder e garantia de direitos, para auxiliar na elaboração da Carta, que foi lida para o Presidente por Phablina Uchoa de Araújo (RR), de 9 anos, e Cosme júnior (BA): "ESTAMOS REPRESENTANDO AS CRIANÇAS E ADOLESCENTES TRABALHADORES DO BRASIL. AS CRIANÇAS QUE TRABALHAM, ALÉM DE SEREM HUMILHADAS, SOFREM MUITO. SÃO MILHÕES DE CRIANÇAS QUE TRABALHAM, COMO NÓS JÁ TRABALHAMOS. E OLHE, SENHOR PRESIDENTE, NÃO GOSTAMOS NEM UM POUQUINHO DESSA VIDA. ACHAMOS MUITO RUIM, MUITO TRISTE, MUITO SOFRIDA. AS CRIANÇAS BRASILEIRAS AINDA PRECISAM VENDER BALAS E DOCES NOS SEMÁFOROS, TRABALHAR NA ROÇA, EM CASAS DE FAMÍLIA, SENDO EXPLORADAS SEXUALMENTE E USADAS NO TRÁFICO DE DROGAS POR PURO DESESPERO E NECESSIDADE. COM A FALTA DE EMPREGO PARA OS PAIS, AS CRIANÇAS E ADOLESCENTES TRABALHAM PARA SUSTENTAR SUAS FAMÍLIAS. NO PASSADO, OS ESCRAVOS